O inexistente olhar crítico do outro

Certa vez, tive que ir ao shopping pela tarde, sozinha, resolver umas coisas. Em casa, toda animada, me arrumei bem à vontade: saia longa azul royal, com uma camiseta de banda de rock preta super-sized amarrada na cintura, um par de tênis nos pés, cabelo desgrenhado, como sempre. Me olhei no espelho antes de sair de casa e me achei mó gata jovenzinha (trintona, hein?!). Estava me sentindo A ADOLESCENTE mais descolada e cool da terceira idade. Cheguei no shopping me achando, super segura e desfilando na passarela, até que… dei de cara com ele. Aquele que acaba com a auto-estima, confiança, segurança e amor próprio de qualquer pessoa. Um dos maiores vilões que já passou pelos corredores de todos os shoppings no mundo inteiro: ele mesmo, o seu reflexo na vitrine da loja do shopping.

O seu reflexo na vitrine da loja do shopping, a primeira vista, pode parecer um amigão, que tá lá pra te mostrar o quão gata você está. Então, assim que você passa pela primeira vitrine, você ainda está se achando e só falta dar uma piscadela para seu reflexo, bem coisa de adolescente babaca mesmo. Mas, na medida em que você vai caminhando pelos corredores, você vai passando por lojas diferentes. Lojas com manequins que estão vestindo roupas mais bacanas que a sua, mais caras que a sua, mais desamassadas que a sua, mais modernas e novas (porque sua camiseta já tá desbotada e meio que fedendo um pouco, né?). Quando seu reflexo começa a aparecer nessas lojas, ele começa a te olhar feio. Parece menos colorido, menos jovial. De repente, você olha e não reconhece a figura que está no reflexo. Cadê aquela gostosa que tava ali há um minuto? Quem é essa velha mal arrumada com essa roupa cafonérrima? E logo pensa: “que eu tinha na cabeça pra sair vestida assim de casa?”.

Nesse dia, minha auto-estima só durou até a terceira vitrine. Na quarta, eu já estava arrependida da roupa e pensando que besteira que fiz. Mas, mal entrou essa ideia e apareceu o segundo maior vilão do shopping. Foi rapidinho. Em termos de maldade, ela está pau a pau com o primeiro lugar. Ela é o segundo maior motivo das pessoas voltarem pra casa pra trocar de roupa: ela, a outra pessoa. Exatamente isso: a outra pessoa. Qualquer uma. Aleatória mesmo (faz sentido né? #SQN). Ela não precisa falar nada, fazer nada. Não precisa nem olhar pra você, nem passar perto. Basta que você a veja que acontecerá o feitiço que estraga o dia/vida de qualquer pessoa: a comparação.

Já não bastava que estava me sentindo uma completa idiota de saia azul longa com uma camiseta de banda de rock amarrada na cintura (que coisa brega!) e tênis (ai, jesus!). Quando menos me dei conta, estava olhando para as outras mulheres que estavam passeando no shopping e me comparando a cada uma delas. Era mais ou menos assim: “ela é mais alta, mais elegante; eu toda corcunda aqui, horrível”, “essa aqui tá tão maqueada; tão bonita; e eu aqui com a cara lavada cheia de rugas e manchas”, “caramba, que mulher linda, toda bem vestida; eu aqui, tão malamanhada, tão feia, tão brega”. Ad aeternum.

Fazia 15 minutos que eu estava no shopping, ainda precisava comprar 2 presentes, e tinha conseguido o feitio de sair do mindset “estou uma gata” para “estou um traste” em menos de 100 metros de caminhada.

Até aí tudo bem. Meu reflexo me olhava feio a cada vitrine e eu ficava me comparando com as outras mulheres, me achando um show de horror, mas as coisas estavam caminhando e eu não ia morrer por causa disso. Só tinha que resolver os presentes e ir embora. Fácil, né?

Era. Mas, aconteceu que nesse mesmo dia eu dei de cara com o terceiro vilão dos shoppings. O pior de todos. O que nos tira a tranquilidade, a paz na mente, a nossa auto-confiança e nos destraça por inteiro, de dentro pra fora. O maior vilão de todos os tempos: “o inexistente olhar julgador da outra pessoa”.

É isso mesmo que você leu: o inexistente olhar julgador da outra pessoa. Vou explicar porque ele é o pior de todos. Vamos separar as sílabas para que você possa entender. “O olhar de outra pessoa” já começa dizendo que outra pessoa está olhando para você. Ou seja, ela passou a vista pelo espaço inteiro do shopping, por todas as pessoas, e justamente a sua pessoa captou a atenção dela. Porque você é tão especial assim, bebê. E você nunca pensa “ela está olhando pra mim porque eu estou super diva hoje!”. É sempre “meu deus, será que derramei mostarda na gola da camisa? Devo estar só a bosta de feia”.

Mas, isso é até normal. Até aí tudo bem. Todo mundo se acha a pessoa mais especial do mundo e todo mundo está sempre nos olhando. Eis que entra a segunda parte do nome: “julgador”. A pessoa não está só olhando pra você. Não! Ela está fazendo um julgamento, uma crítica. Não só a sua figura chamou a atenção dela, mas chamou a atenção de uma forma ruim e a pessoa está mentalmente fazendo uma crítica extremamente rígida à sua pessoa, sua roupa, sua maquiagem, seu corte de cabelo, sua bolsa, seu sapato, suas tatuagens, suas escolhas. Na sua cabeça, a pessoa está te olhando e pensando “como ousas sair da tua casa vestida deste jeito? Vais causar vergonha a tua família e levá-la à ruína! Volte para a toca donde viestes e jamais retornes”. Porque, né? É óbvio que todo mundo falar assim e é claro que ela está pensando exatamente isso. Afinal, você está horrível e merece toda essa atenção.

E aí vem a terceira e pior parte do nome desse vilão: “inexistente”. Que significa exatamente isso: não existe. Nadica. Zero. Zip.

Porque essa é a pior parte? Porque, no final das contas, nada disso está realmente acontecendo. A pessoa não está olhando pra você, nem muito menos te julgando. Ela nem sabe que você existe. Quem diabos é Larissa no jogo do bicho?

Todas essas figuras são faces diferentes do que é, na realidade, um único vilão: o seu ego fragilizado. Quando pensamos em ego, pensamos em coisas ruins. Lembramos de pessoas egocêntricas ou egoístas. Mas, a saúde do nosso ego é importante. A interpretação filosófica do ego é que ele é “o eu de cada um” ou “o que caracteriza a personalidade de cada indivíduo”. Ele é considerado o defensor da personalidade. (peço licença aos psicólogos se estiver cometendo erros grotescos aqui)

Em outras palavras, é a nossa própria insegurança que nos prega peças como essa minha no shopping. Meu reflexo na vitrine estava igual ao do meu espelho em casa, quando estava me sentindo a maior gostosa. As outras pessoas não estavam nem mais, nem menos bonitas ou arrumadas do que eu. Elas estavam elas e eu estava eu. E absolutamente ninguém estava olhando para mim e julgando minha beleza ou falta dela. Tudo foi da minha cabeça, tudo inventado, tudo fantasia.

E sabe por quê? Porque na época, dois anos atrás, eu achava que precisava de uma aprovação das outras pessoas para me sentir bem. Só me sentia bonita se estivesse dentro dos “padrões” (quaisquer que fossem eles). Só me sentia segura se todos dissessem que eu estava bonita. Minha própria voz não era o suficiente.

Olha que tragédia. Nós não somos o suficiente. Ou não achamos que somos.

Mas, tudo muda com o tempo. De lá para cá, aprendi a me amar. Aprendi a me cuidar, aprendi o que gosto e o que não gosto, aprendi a me valorizar mais. A me comparar apenas comigo mesma. E ainda assim, ainda não estou num nível super power de autoconfiança e autoestima. De vez em quando, ainda dou uma olhadela para o lado e me questiono. Mas, hoje em dia, quando vou ao shopping malamanhada e me olho no reflexo das vitrines das lojas, ou eu não ligo, realmente, ou me acho bonita, mesmo quando não estou. Porque nesse mundo só existe eu igual a mim, ninguém mais que seja igual. Nem de longe parecida.

Não é fácil e nem perfeito. Mas, quando ele aparece, chuto o inexistente olhar julgador das pessoas pra longe e chamo meu amor-próprio pra bater um papo cabeça. Ele é muito mais legal comigo. Afinal, quero perto quem me bota pra cima e não quem me olha de cima pra baixo. Concorda?

Quem sou eu pra tatuar?

É muito raro acontecer. Porém, vez ou outra em nossa vida, acontece algo muito raro. Algo aparece de surpresa à nossa porta. A maioria das pessoas tem tanto medo dessa coisa que nem abre para ver o que é. As poucas que têm coragem abrem uma brecha e descobrem, ali, disponível, disposta, aberta e pronta, ela: a oportunidade única.

Muitas pessoas confundem oportunidade com sorte. Elas cresceram acreditando que você receber uma oportunidade era você virar supervisor depois de 10 anos e passar a receber um salário melhor, ou um tio desconhecido que morre e deixa uma pequena herança, ou um QI que deu certo e o amigo do primo da sua mãe conseguiu aquele emprego bacana pra você. Ou um investimento numa poupança (negoção, hein?) que seu gerente do banco garantiu ser a melhor aplicação para o seu dinheiro. Ou um carro 2011 no preço! Olha só, que oportunidade! E quando você recebe aquele tão suado bônus no final do ano e consegue, finalmente, comprar sua primeira casa. Eita, que orgulho. Você teve uma vida cheia de oportunidades!

Ok. Vou explicar. Muitas pessoas acreditam que oportunidade é uma situação favorável que cai prontinha em nosso colo. Pronta para ser comprada, vendida, investida, realizada, etc. Mas, nem sempre é assim. Aliás, na maioria das vezes, não é nem um pouco assim. As melhores oportunidades vêm disfarçadas de problemas que são ignorados e despercebidos pela maioria. Elas aparecem como um questionamento que você se faz, sem querer, e que acaba gerando uma reflexão, como: e se eu pudesse alugar minha casa por diária, como num hotel? E se eu colocasse um motor na minha bicicleta? E se eu vendesse esse xarope de colamedicinal como se fosse uma bebida comum, acompanhando um hambúrguer? E se eu abrisse a rede social da minha universidade para o mundo? E seu eu pudesse dar caronas a pessoas com o meu carro? E seu eu pudesse carregar todas as minhas músicas no meu bolso?

Tá, tô fazendo aquilo de usar só empresas grandes como exemplo, né? Mas, cada empresa no planeta, grande ou pequena, surgiu para resolver um problema ou suprir uma necessidade de alguém em algum lugar e tem como único propósito de existência fazer isso. E essas necessidades e esses problemas em algum momento tiveram que ser identificados. Então, podemos dizer talvez que a maioria das oportunidades não caem em nossos colos. Elas são descobertas, trazidas à luz ou, melhor ainda, criadas. (O livro “O Mito do Empreendedor” explica como essa é a melhor forma de se iniciar um negócio.)

Em novembro de 2017, eu decidi que voltaria a desenhar e que, dessa vez, levaria a sério. Comprei um curso online de desenho e comecei no início de dezembro. Até o meio de janeiro de 2018 eu já tinha completado meu primeiro sketchbook. Alguém me disse que um certo desenho meu daria uma linda tatuagem. Eu ri e não levei a sério. Disse: “quem sabe daqui a uns dois anos quando já tiver aprendido a desenhar direito”. Continuei desenhando.

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No final de janeiro, decidi fazer uma tatuagem nova. Já tinha o desenho, só precisava de um artista competente. Comecei a pesquisar. Descobri que desde a última vez que havia feito uma tatuagem, o número de profissionais na cidade tinha, no mínimo, triplicado. Quanta gente nova, quanta gente jovem! Me apaixonei pelo trabalho de uma moça e descobri que ela tinha 23 anos. Fiz “EPA! Peraí! Tem alguma coisa aqui!”. De repente, um número altíssimo de tatuadores jovens, novatos, já tatuando, já com agendas lotadas, grande audiência de fãs, com dificuldade até de passar orçamento. Quando foi que isso tudo aconteceu?

O alarme soou na cabeça. Fazia tempo que ele tava caladinho. Começou bem leve, mas com alguns dias, já tava quase acordando a vizinhança de tão alto que soava. Era o alarme da oportunidade. Despertei na hora. Comecei a pesquisar. Pesquisei tatuadores, seus sites, perfis nas redes sociais, seus trabalhos, seus estilos, como trabalham, quanto cobram, onde moram, onde tatuam. Mandei mensagens, troquei ideias, fiz perguntas, visitei estúdios, fui a uma exposição. Fiz uma pesquisa de mercado BOA. A publicitária em mim fornecendo ferramentas para a possível artista em mim descobrir um novo negócio. Pois, um sonho que sempre tive foi trabalhar com arte. Poder ganhar dinheiro fazendo arte. Fazer da arte o meu negócio. Mas, nunca encontrei um meio de fazer isso acontecer. Até o bendito mês de janeiro.

Em fevereiro fiz meu primeiro curso e já realizei minhas duas primeiras tatuagens. Foi tão rápida a decisão que foi um choque para muitas pessoas. Uma grande surpresa. Em março, fiz mais algumas e decidi que queria aprender mais. Em abril, comecei meu segundo curso de tatuagem, que ainda está em andamento. Até agora, fiz 7 tatuagens no total. E muitos, muitos desenhos, pois o estudo é o mais importante.

Eu, Larissa, tatuadora? Em 2014, quando fui contratada pela Solar Coca-Cola, meu pai me parabenizou e disse “a meta agora é CEO!”. E essa era mesmo a meta. Queria ser Chief Marketing Officer, CMO, de alguma empresa grande, um dia. Queria ser executiva, trabalhar de terno e salto, com planilhas e planejamentos estratégicos, indicadores e metas. Queria ser importante. Mas, nos últimos quatro meses, esse sonho foi se desintegrando, me parecendo cada vez mais sem cor, sem graça. Me deixei levar pela tão famosa métrica de vaidade. Meu sonho era ter um título bonito e um salário mais bonito ainda.

Me peguei pensando que criar é algo que me dá muito mais prazer. Criar e também ajudar pessoas. Aconselhar, apoiar, cultivar relacionamentos. Eternizar numa parte do corpo uma arte que tenha um significado importante, que a pessoa vai levar consigo para sempre. Ou ajudar alguém a descobrir o melhor caminho para chegar a algum lugar.

A oportunidade bateu na minha porta vestida de tribal e realismo colorido, tradicional americano e neo-tradicional, graphic art e sketch, dizendo: “Ei! Vem tatuar!”. E eu, tão entusiasmada e energizada que estava, nem liguei muito para o medo que aparecia de vez em quando do possível preconceito da família, dos amigos ou dos colegas de trabalho. Sabe fé cega? A tatuagem pra mim veio como fé cega. Fui correndo no escuro e nem enxerguei esses percalços, essas possibilidades.

Mas, mesmo através dos tombos, quedas, perdas, dificuldades, fracassos e vitórias até então, e aquele medo de como me despir da imagem Larissa executiva e deixar aparecer a Larissa tatuadora, tatuei uma irmã e vários amigos, ganhei uma maca para tatuagem de presente da avó, o pai tá de olho em espaço para estúdio, meu filho fica se fazendo de artista riscando meu braço com caneta e minha mãe avisando “já tá na hora de começar a cobrar!”.

Eu? Quem sou eu pra tatuar? Ah, vai… Tatua, La.

Qual o problema com a cor dos meus cabelos?

-Tia, por que seu cabelo tá branco? – me perguntou uma criatura de 7 anos, depois de 10 segundos olhando fixamente pro topo da minha testa.

-Ele não está branco, ele é branco, meu amor – respondi.

-Mas, você tá parecendo velha!

Já ouvi isso antes: velha ou desleixada. São os dois tipos de mulheres que deixam seus cabelos brancos. Segundo o que dizem, é claro.

E se fossem azuis ou rosa choque? Querendo ser rebelde, coisa de maluca. Você não é mais adolescente não, minha filha. Grow up!

Se fossem raspados? Ah, essa é doida de pedra. Coitada. O cabelo era tão lindo, aí fez essa loucura.

Se estivessem frizzados? Com certeza, acordou e esqueceu de pentear. Ou levou um choque, né?

Passou da cintura? Tá na hora de cortar, né? Longo demais. Deve dar um trabalhão pra lavar, só gastando água. Corte esse negócio, aff!

Encaracolou? Cacheou? Menina, faça uma escova ou um coque. Tá todo bagunçado seu cabelo. Alisa esse trem…

Alisou com química? Olha só, tá parecendo uma vassourinha. Algo deu errado aí. Melhor voltar ao natural.

E, é claro: deixou de pintar a raíz? Credo, que descuido. Ficou com mó cara de velha. Ei, tá com cabelo branco, né? Vamo pintar?

A lista continua. A lista de coisas que ouvimos todos os dias sobre como devemos ser, como devemos nos vestir, como devemos nos arrumar, como devemos parecer. Ouvimos tanto sobre como as pessoas esperam que sejamos, que fico me perguntando se sabemos como nós realmente queremos ser. O que é beleza, enfim? E quem define o que é bonito ou não? E por que damos tanto ouvidos “aos outros” e calamos tanto a nossa voz interior?

É o velho problema do “culto à beleza”. Não, o tema não está esgotado. Continua importante e pertinente e ainda há muito o que se falar e fazer. Quando deixei meus cabelos voltarem a ser cacheados, me senti linda e autêntica, mas há quem diga que só ando de cabelo bagunçado. Hoje em dia ele passa boa parte do tempo preso num coque alto, aí o pessoal diz “mas é tão bonito solto”. A pessoa não pode mais nem sentir calor! Parece que temos que andar sempre em nossa melhor versão, na nossa versão mais bonita de ser. Tudo bem até aí. O problema é que a definição dessa nossa versão mais bonita nem sempre vem do nosso interior. Isso acontece pois damos muito ouvidos ao que as pessoas dizem. E o que elas dizem?

Dizem que as mulheres têm que ser magras, com seios e bunda grandes e cintura fina. As pernas? Grossas, de preferência. Têm que ser gostosas e saradas, mas nem tanto, senão ficam muito masculinas. Têm que andar de salto e de bumbum empinado. Cuidado para não parecer arrogante e que “se acha”, senão pega mal. Os cabelos têm que ser tingidos nas cores da moda e sempre com a raiz pintada. Têm que andar maquiadas, senão é descuido e ninguém quer ficar vendo pele manchada, espinhas e olheiras profundas, né? Têm que ser sempre femininas e sempre bonitas, mas só se for de acordo com as normas e regulamentos criados pelas revistas da moda, novelas e filmes de Hollywood, senão não conta.

E o que ganhamos com isso? Mulheres inseguras e com problemas psicológicos e emocionais por causa da pressão da sociedade por um corpo perfeito; mulheres obcecadas com seu peso, tomando todo tipo de medicação, abdicando de momentos especiais da vida para não “jacar”; mulheres gastando o dinheiro do mundo todo alisando e pintando os cabelos para que fiquem iguais aos das famosas; mulheres botando silicone porque aprenderam que peito bonito é peito grande; mulheres com problemas de coluna por causa do uso contínuo e abusivo do salto, porque elas acham que só assim ficam elegantes; mulheres com problemas de pele depois dos trinta porque passaram a vida com a pele carregada de maquiagem pra ficar mais “bonita”. Enfim, mulheres sempre insatisfeitas com a forma e beleza natural dos seus corpos porque aprenderam que pra ser bonita de verdade, precisam seguir a receita da novela das 8.

A boa notícia é que isso tá mudando. Estamos vendo mulheres gordinhas em cima das passarelas e servindo de exemplo para as jovens. Mulheres de cabelos alisados finalmente assumindo os cachos, sem vergonha, sem peso na consciência. Mulheres usando tênis porque é mais importante se sentir confortável do que “elegante”. Mulheres aprendendo a cultivar seu próprio bem estar, sua auto-estima e tomando decisões baseadas no que elas realmente querem e não com o que os outros irão pensar.

Afinal de contas, não é errado colocar silicone, pintar cabelos, usar maquiagem e salto e querer ser magra, se tudo isso é o que realmente você quer. Eu já usei maquiagem todo dia porque achava que só ficava bonita assim. Já usei salto todo dia porque achava que só ficava bonita assim. Alisei meus cabelos por mais de 13 anos porque achei que só ficava bonita assim. Já fiz todo tipo de dieta, tomei remédio e sofri pra perder peso porque achei que ser gorda era feio.

Hoje em dia, eu uso maquiagem quando saio, penso em colocar silicone e fazer abdominoplastia, uso salto de vez em quando e faço dieta quando sinto necessidade. Mas, hoje sou eu que tomo as decisões e faço as escolhas, conscientemente, pensando no meu bem estar e no que eu considero como sendo bonito. Me olho no espelho sem maquiagem e me acho bonita. Me olho no espelho com os cabelos frizados e brancos e me acho bonita. Me olho no espelho, gordinha e com várias celulites e me acho bonita, mesmo assim.

Mas, não foi fácil. É um trabalho de aceitação, tolerância, auto-estima, desenvolvimento pessoal, que parte da gente e termina com a gente. E talvez eu pinte meu cabelo novamente, enfim. Talvez eu não consiga conviver com os olhares e as reclamações. Mas, a vida é evolução e aprendizado. Os outros vão sempre falar. Sempre vai ser melhor e mais bonito de outro jeito. Em vez de aprender a fazer biquinho de pato, aprenda a fazer cara de paisagem quando alguém reclamar que você poderia ficar mais bonita se apenas ____________.

Voltando aos cabelos brancos…

-Tia, você não tem medo de parecer velha?

-Eu pareço ter uns 30 anos?

-Parece!

Problema resolvido. E se não parecesse? Problema resolvido, também.