Quem sou eu pra tatuar?

É muito raro acontecer. Porém, vez ou outra em nossa vida, acontece algo muito raro. Algo aparece de surpresa à nossa porta. A maioria das pessoas tem tanto medo dessa coisa que nem abre para ver o que é. As poucas que têm coragem abrem uma brecha e descobrem, ali, disponível, disposta, aberta e pronta, ela: a oportunidade única.

Muitas pessoas confundem oportunidade com sorte. Elas cresceram acreditando que você receber uma oportunidade era você virar supervisor depois de 10 anos e passar a receber um salário melhor, ou um tio desconhecido que morre e deixa uma pequena herança, ou um QI que deu certo e o amigo do primo da sua mãe conseguiu aquele emprego bacana pra você. Ou um investimento numa poupança (negoção, hein?) que seu gerente do banco garantiu ser a melhor aplicação para o seu dinheiro. Ou um carro 2011 no preço! Olha só, que oportunidade! E quando você recebe aquele tão suado bônus no final do ano e consegue, finalmente, comprar sua primeira casa. Eita, que orgulho. Você teve uma vida cheia de oportunidades!

Ok. Vou explicar. Muitas pessoas acreditam que oportunidade é uma situação favorável que cai prontinha em nosso colo. Pronta para ser comprada, vendida, investida, realizada, etc. Mas, nem sempre é assim. Aliás, na maioria das vezes, não é nem um pouco assim. As melhores oportunidades vêm disfarçadas de problemas que são ignorados e despercebidos pela maioria. Elas aparecem como um questionamento que você se faz, sem querer, e que acaba gerando uma reflexão, como: e se eu pudesse alugar minha casa por diária, como num hotel? E se eu colocasse um motor na minha bicicleta? E se eu vendesse esse xarope de colamedicinal como se fosse uma bebida comum, acompanhando um hambúrguer? E se eu abrisse a rede social da minha universidade para o mundo? E seu eu pudesse dar caronas a pessoas com o meu carro? E seu eu pudesse carregar todas as minhas músicas no meu bolso?

Tá, tô fazendo aquilo de usar só empresas grandes como exemplo, né? Mas, cada empresa no planeta, grande ou pequena, surgiu para resolver um problema ou suprir uma necessidade de alguém em algum lugar e tem como único propósito de existência fazer isso. E essas necessidades e esses problemas em algum momento tiveram que ser identificados. Então, podemos dizer talvez que a maioria das oportunidades não caem em nossos colos. Elas são descobertas, trazidas à luz ou, melhor ainda, criadas. (O livro “O Mito do Empreendedor” explica como essa é a melhor forma de se iniciar um negócio.)

Em novembro de 2017, eu decidi que voltaria a desenhar e que, dessa vez, levaria a sério. Comprei um curso online de desenho e comecei no início de dezembro. Até o meio de janeiro de 2018 eu já tinha completado meu primeiro sketchbook. Alguém me disse que um certo desenho meu daria uma linda tatuagem. Eu ri e não levei a sério. Disse: “quem sabe daqui a uns dois anos quando já tiver aprendido a desenhar direito”. Continuei desenhando.

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No final de janeiro, decidi fazer uma tatuagem nova. Já tinha o desenho, só precisava de um artista competente. Comecei a pesquisar. Descobri que desde a última vez que havia feito uma tatuagem, o número de profissionais na cidade tinha, no mínimo, triplicado. Quanta gente nova, quanta gente jovem! Me apaixonei pelo trabalho de uma moça e descobri que ela tinha 23 anos. Fiz “EPA! Peraí! Tem alguma coisa aqui!”. De repente, um número altíssimo de tatuadores jovens, novatos, já tatuando, já com agendas lotadas, grande audiência de fãs, com dificuldade até de passar orçamento. Quando foi que isso tudo aconteceu?

O alarme soou na cabeça. Fazia tempo que ele tava caladinho. Começou bem leve, mas com alguns dias, já tava quase acordando a vizinhança de tão alto que soava. Era o alarme da oportunidade. Despertei na hora. Comecei a pesquisar. Pesquisei tatuadores, seus sites, perfis nas redes sociais, seus trabalhos, seus estilos, como trabalham, quanto cobram, onde moram, onde tatuam. Mandei mensagens, troquei ideias, fiz perguntas, visitei estúdios, fui a uma exposição. Fiz uma pesquisa de mercado BOA. A publicitária em mim fornecendo ferramentas para a possível artista em mim descobrir um novo negócio. Pois, um sonho que sempre tive foi trabalhar com arte. Poder ganhar dinheiro fazendo arte. Fazer da arte o meu negócio. Mas, nunca encontrei um meio de fazer isso acontecer. Até o bendito mês de janeiro.

Em fevereiro fiz meu primeiro curso e já realizei minhas duas primeiras tatuagens. Foi tão rápida a decisão que foi um choque para muitas pessoas. Uma grande surpresa. Em março, fiz mais algumas e decidi que queria aprender mais. Em abril, comecei meu segundo curso de tatuagem, que ainda está em andamento. Até agora, fiz 7 tatuagens no total. E muitos, muitos desenhos, pois o estudo é o mais importante.

Eu, Larissa, tatuadora? Em 2014, quando fui contratada pela Solar Coca-Cola, meu pai me parabenizou e disse “a meta agora é CEO!”. E essa era mesmo a meta. Queria ser Chief Marketing Officer, CMO, de alguma empresa grande, um dia. Queria ser executiva, trabalhar de terno e salto, com planilhas e planejamentos estratégicos, indicadores e metas. Queria ser importante. Mas, nos últimos quatro meses, esse sonho foi se desintegrando, me parecendo cada vez mais sem cor, sem graça. Me deixei levar pela tão famosa métrica de vaidade. Meu sonho era ter um título bonito e um salário mais bonito ainda.

Me peguei pensando que criar é algo que me dá muito mais prazer. Criar e também ajudar pessoas. Aconselhar, apoiar, cultivar relacionamentos. Eternizar numa parte do corpo uma arte que tenha um significado importante, que a pessoa vai levar consigo para sempre. Ou ajudar alguém a descobrir o melhor caminho para chegar a algum lugar.

A oportunidade bateu na minha porta vestida de tribal e realismo colorido, tradicional americano e neo-tradicional, graphic art e sketch, dizendo: “Ei! Vem tatuar!”. E eu, tão entusiasmada e energizada que estava, nem liguei muito para o medo que aparecia de vez em quando do possível preconceito da família, dos amigos ou dos colegas de trabalho. Sabe fé cega? A tatuagem pra mim veio como fé cega. Fui correndo no escuro e nem enxerguei esses percalços, essas possibilidades.

Mas, mesmo através dos tombos, quedas, perdas, dificuldades, fracassos e vitórias até então, e aquele medo de como me despir da imagem Larissa executiva e deixar aparecer a Larissa tatuadora, tatuei uma irmã e vários amigos, ganhei uma maca para tatuagem de presente da avó, o pai tá de olho em espaço para estúdio, meu filho fica se fazendo de artista riscando meu braço com caneta e minha mãe avisando “já tá na hora de começar a cobrar!”.

Eu? Quem sou eu pra tatuar? Ah, vai… Tatua, La.

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