Poesia

09/01/2008

Cegueira

Você vê.
Você vê a mentira e suas pernas curtas.
Os olhos que atraem, os olhos que julgam
O egoísmo e o egocentrismo e o malabarismo e o jogo de cintura
Existem males para haver cura
Você vê o injusto, você vê o impuro.

Você vê.
Você vê bons amigos de longa data
Tomando cerveja como quem não quer nada
E na hora do sufoco
Quem é rico não desce pro poço
Você vê o abandono, você vê o incômodo.

Você vê.
Você vê o amor que brotou do céu estrelado
Um coração partido, quebrado, aos cacos
Foi um inconveniente sem precedentes
Mas se aconteceu agora, acontecerá novamente
Você vê a culpa, você vê a insulta.

Você vê.
Você vê que a traição é o berço da insanidade
Quem mente, de repente, um dia perde a verdade
Recorda-se da honra que perdeu
Chora a integridade que já morreu
Você vê o arrependimento, você vê o sentimento.

Você vê.
Você vê a fumaça que sai do cano imbutido
Fumaça negra, criança no chão por causa do tiro
Imprudência nossa acreditando nas pessoas
Inocência sua que só acredita em coisas boas.
Você vê o fim, você vê tudo que é ruim.

Você vê tudo isso e pára.

Você vê seu compromisso e dispara.

Você não vê?

Ou você não quer ver?

07/04/2008

1.

deixe que ela entre, entre em fusão
que gire e role e caia
da escada do abismo da saia
do meu encalço, meus pés descalços
deixe que ela entre em compressão

deixe que ela entre, entre na minha imaginação
meus caleidoscópios frenéticos de luzes e barulho
que ela venha escalando pulando subindo meu muro
que atravesse meu mar de pensamentos, minha enchente meu tornado de tormentos
deixe que ela entre e sinta a minha paixão

deixe que ela entre, entre em depressão
ao ver meus olhos amargos
inchados molhados e pardos
que ela sinta minha agonia, minha testa suada e fria
deixe que ela entre e pise no meu chão

deixe que ela entre, entre com precisão
que ela atire e acerte na mira
que ela aponte e conte e confira
e me leve com amor, sem frio sem ódio sem dor
deixe que ela entre com razão

deixe que ela entre, entre sem indecisão
que não seja como eu, inconstante
que ela venha com um cheiro marcante
e não se iluda com minhas verdades, que se destroem cedo ou tarde
deixe que ela entre com inspiração

deixe que ela entre, entre com compaixão
que não demore muito lá dentro
não olhe nem repare meu descontentamento
que ela venha e se vá com rapidez, que leve embora minha insensatez
deixe que ela venha com pressão

deixe que ela entre, entre no meu mundo
que ela me conheça e me entenda a fundo
que chore ria sofra ame e saiba tudo
que ela venha com um só objetivo, que ela o cumpra e salve o meu riso
deixe que ela entre e me leve junto.

08/04/2008

Havia ali uma alma a procura
Havia ali uma doce ternura
Havia ali perturbadora confusão
E as preces sussurradas de um honesto coração

Havia ali uma face sorridente
Os sinceros sorrisos dos rostos que mentem
Um senhor perdido com medo de gente
Uma pequena criança com sua própria em seu ventre

Havia ali nada mais que o mal
E o mal para essa gente parecia normal
O que damos tiramos e o que recebemos também
O que tinha de bom já agora não tem

E as lutas lutadas e as guerras passadas
São somente lembranças do passado e mais nada
Só existe agora o futuro e o presente
E aquela pobre criança com sua própria em seu ventre

Fruto do pecado de um homem mortal
Que fez daquela vida um inferno total
Havia ali almas com amor por nada
Se escondendo no porão debaixo da escada

Havia ali uma mulher desprezada
Cujo homem não a fazia sentir-se amada
Havia um velho de branco
Fumando, morrendo, em plena madrugada

Havia ali esperança decadente
Nenhuma alma com um fogo ardente
Só uma à luz era pura de verdade
Era aquela pobre criança com sua própria em seu ventre.

30/04/2008

Me ame,
                 
mesmo que de uma certa                            distância.

                                                  Criada pelo medo

de ser amado de volta.
Me segure,
me aperte fortemente com os seus olhos
faça do seu olhar o meu asilo, o meu abrigo
                          
                          |e na hora do aperto|

me traga de volta para casa.
Me beije,
com seus lábios de nuvem que se
d
e
s
f
 a
   z
     e
        m
           nos meus sonhos.
                           Que vão
e que voltam.
Como a saudade de algo nunca experimentado.
Confie em mim,
e me dê a sua mão,
              fria
                e
                fraca.

Deixe-me te ensinar a dar passos L O N G O S
e mostrar que o meu calor não queima,
                                  acalma.
Me sinta,
porque eu já não sinto a mim mesma.
                  E preciso do seu toque
                                e saber que você não é apenas uma

                           
palavra.

19/06/2008

Soneto do amor sem jeito

Amo-te sem palavras e declamações
Na calma da manhã e no suspiro do anoitecer
Na busca extasiada de chuva sem trovões
Amo-te a esmo no calado entardecer

Amo-te como se não fosse de verdade
É sentir sem tocar o teu corpo quente
É beijar sem encostar na tua boca ardente
Amor sustentado por eterna saudade

De uma longa distância esse amor sustento
Guardando-o entre lágrimas com dor no peito
Mantendo o orgulho encravado no silêncio

Eu deixo para trás esse amor desfeito
Sem nunca proclamá-lo aos quatro ventos
Para não dar esperança a um amor sem jeito.

02/12/2008

Quando te vi
quase esqueci, não percebi
que o findar do teu olhar sobre mim
me traria em pouco tempo
uma tristeza sem fim

03/04/2009

Já estás tão perto da tua sorte, meu amor, não volte
Finja que o sol da aurora ainda nasce
Permita que os lábios meus te beijem a face
Deixa comigo tua vida e leva contigo minha morte

Já almejaste tanto este abismo, meu amor, não chore
Que as lágrimas tuas penduram em minh’alma eternamente
O corpo meu do teu já se sente ausente
E a angústia da tua lembrança implora que não demore.

Saudades tua já sinto há tanto tempo
Que não me lembro do tempo em que as não sentia
Teus olhos de orvalho há anos já não via

Tu sonhaste tão belo e divino com este vento
E tanto me dói esta espera tua em contratempo
Que já quase extinta se encontra em ti a luz do dia.

22/04/2009

quando eu fico triste
escuto Nina Simone
e me acabo de vez

mas, às vezes mudo
e coloco Elis Regina
para ficar triste também em português.

26/05/2009

Porque fazer as coisas sempre certas
quando podemos fazer tortas?

14/06/2009

Vi a Avenida Paulista de um lado
com meus olhos futuristas

Depois vi atravessada
com meu coração de turista

A impressão que ficou
foi a minha como artista.

14/06/2009

agarrei-me a ti como a um sonho:
não percebi quando chegaste
e, desde então, nunca mais acordei.

08/07/2009

eu te quero pronto, e só
eu te quero só, e apenas
eu te quero apenas, então
eu te quero então, assim

eu te quero assim, então
eu te quero então, apenas
eu te quero apenas, e só
eu te quero só, e pronto.

09/07/2009

Em minha vida
caminhei através de milhares de pessoas
sem ser
vista tocada falada
respirei os seus ares
compartilhei seus olhares
olhei fundo em seus olhos
passei por elas em silêncio agudo
agora me encontro no futuro
e descobri que sou
completamente
desconhecida.

18/11/2009

Eu tinha cabelo de furacão
O seu estava sempre penteado
Minhas unhas roídas, dedos machucados
As suas limpas e feitas, brilho impecável
Meus atrasos de 3 horas
Os seus de 10 minutos
Meu nervosismo.
Sua calma.Minha energia inesgotável
Seu sono constante
Minha sede pelo futuro
A sua por uma vida calma
Minha obsessão por livros
Sua preguiça de leitura
Meu desprezo por televisão
Seu vício na telinha
Minha ansiedade.
Sua tranquilidade.Meu seu.
Seu meu.

17/08/2008

ele disse que o problema não era comigo, o problema era com o mundo. para ele o mundo é uma massa gigantesca de terra, água, ar e maldade. ele queria ver todos os habitantes do planeta aniqüilados, derrotados, extintos deste paraíso. para que o mundo voltasse a ser algo do que se pode orgulhar. e eu faço parte desse mundo imundo imenso. eu sou a carne viva que confirma os terrores que existem, mas eu também sou a barreira que impede o ódio total. eu sou um dos pequenos, ínfimos motivos pelos quais ele não inicia uma guerra contra a humanidade. eu sou a causa de um sorriso em um rosto que só conhece a tristeza. eu sou um nada e, ao mesmo tempo, sou um muito. fico triste em saber que nada poderá mudá-lo, que ele sempre será infeliz miserável e raivoso, que a minha habilidade em transformar as pessoas e em curar as paranóias não será útil com ele. no entanto, continuo, sigo ao seu lado, rezando para que ele nunca exploda em seus pensamentos e decida exteriorizar seu desdém e seu repúdio. guardo-o do mundo com cautela e não sei se o que me aterroriza mais é o fato de ele ser assim, ou se é porque, no fundo, eu concordo com ele.